Antes de falar sobre desconforto, precisamos falar sobre alívio. O que se costuma chamar de “euforia de gênero” é em si um sinal de disforia de gênero. Estamos falando dos sentimentos positivos que um homem trans sente ao enxergar seu peitoral reto no espelho após vestir um binder ou ao ser chamado de “moço” na rua, ou a alegria em um primeiro momento inexplicável que uma pessoa trans feminina sente ao vestir uma saia ou pintar as unhas pela primeira vez. Você pode estar se perguntando: “como pode um sentimento alegre evidenciar um sentimento de tristeza?” A resposta para isso é simples.

Imagine uma pessoa que nasceu em uma caverna e passou a vida inteira vivendo no subsolo, tendo como única fonte de iluminação velas e lamparinas. Imagine que essa pessoa nunca esteve acima do solo e que nem sabia sobre a existência da superfície. Então, um dia, um desmoronamento acontece em um túnel lateral e revela uma abertura para o lado de fora. A luz do sol entra pela abertura e, a princípio, essa luz é muito forte e a pessoa foge com medo. Mais tarde, ela retorna à abertura, receosa, porém com alguma curiosidade. Conforme os olhos dela se ajustam, ela olha pelo buraco e vê um mundo brilhante e cheio de cores que ela nem sabia que existiam.

Esse mundo é assustador, é enorme e cheio de elementos desconhecidos, então ela rasteja de volta para a caverna em busca de segurança, mas aquele buraco ainda está lá, emanando luz toda vez que essa pessoa passa por ele. Gradualmente, ela espia cada vez com mais frequência, cada vez mais longe da abertura. Ela começa a querer explorar aquele mundo e encontra motivos para visitá-lo com mais e mais frequência.

Eventualmente, ela percebe que não quer mais voltar para o buraco. Ela sente que tem que voltar, porque é lá que estão a família e os amigos, mas esse lugar novo é muito melhor, ela quer ficar aqui. Voltar para o buraco parece errado, estar nessa caverna escura torna-se doloroso e limitante demais.

A euforia de gênero que pessoas trans sentem é como a descoberta de um mundo novo, ele pode parecer muito estranho e confuso de se lidar e entender de início, mas, com o passar do tempo, você se acostuma e percebe que esse é o lugar a qual você pertence. Assim, essa escuridão que antes parecia tão natural começa a ser sentida como a disforia.

Muitas pessoas trans não têm ideia de quanta dor estão sentindo até encontrarem pequenos espaços de alívio. Atividades fantasiosas ou artísticas como cosplay, teatro, drag ou videogames permitem pequenas incursões em uma expressão de gênero diferente daquela que vivem no seu dia a dia. Elas vão percebendo que estar nessa posição é um pouco mais confortável. Às vezes, a pessoa pode inventar desculpas para o porquê gosta dessas coisas ou tentar se convencer de que é tudo apenas por brincadeira ou expressão artística. Eventualmente, quando a pessoa tem mais oportunidade de explorar isso tudo, vai ficando claro que esses sentimentos não estão restritos a estas atividades e que não podem ser simplesmente ignorados. Ela pode concluir que sua vida seria melhor se pudesse viver o tempo todo sendo de outro gênero. Aos poucos ela pode sentir que o que na verdade é uma fantasia descolada da realidade é expressar-se como seu “velho eu”.

Esta é a razão mais fundamental pela qual dizemos que a disforia não é o sentimento mais importante para que uma pessoa se perceba trans. Assim como tinta preta em um papel preto não é visível sem um exame atento e muita luz, é frequente que pessoas trans não se percebam sentindo disforia de gênero por estarem muito dissociadas psicologicamente de sua experiência com seus próprios corpos. Já a alegria de poder expressar seu gênero real é um sentimento muito mais fácil de ser percebido. Esta alegria é a euforia de gênero.

A euforia de gênero é um dos sentimentos mais importantes a se observar caso você esteja se questionando a respeito de ser ou não transgênero. Conforme mencionamos nos artigos a seguir, as variadas formas de disforia podem ser aliviadas com tratamentos e mudanças de vida que ajudem a alinhar a identidade de gênero real de uma pessoa, de um lado, e sua expressão social e funcionamento bioquímico, do outro. A euforia de gênero é precisamente o alívio e felicidade que uma pessoa trans sente quando essa incongruência se dissipa, ainda que momentaneamente. Se uma pessoa AMAB se sente eufórica com a ideia de viver 24h de seus dias apresentando-se como mulher e iniciando terapia hormonal com estrogênio, isto é um forte indício de que ela é trans – um homem cis dificilmente se sentiria bem fazendo essas mesmas coisas, pois ele não sente disforia quanto a seu gênero.

Quase toda fonte de disforia pode ser uma fonte de euforia. O desconforto que decorre especificamente de incongruências de gênero pode ser aliviado adotando-se outras expressões de gênero, em um processo que transforma algo que incomodava em uma fonte de alegria.

Estes são alguns exemplos de situações em que pessoas trans costumam sentir euforia de gênero:

  • Ser percebida pelo seu gênero correto pelas pessoas ao seu redor
  • Ter seu nome escolhido respeitado e ser chamada por ele (e não pelo seu nome morto)
  • Explorar mais livremente a sua expressão pessoal (com roupas, acessórios, cortes de cabelo etc.)
  • Ver e sentir mudanças em seu corpo com a terapia hormonal
  • Reconhecer-se a si mesmo no espelho
  • Ser incluída em atividades geralmente reservadas a pessoas de seu gênero (por exemplo, ser convidada para um barzinho lésbico ou uma despedida de solteiro)
  • Depilar as pernas ou pelos faciais
  • NÃO depilar as pernas ou pelos faciais
  • Sentir-se atraente ou fazer sexo de uma forma alinhada às concepções de seu gênero e sexualidade.

A euforia não é uma excitação sexual ou um fetiche. Às vezes, a euforia pode desencadear uma resposta sexual, e há muitos fatores em jogo que causam isso (sentir-se bem com seu corpo pode ser excitante, por exemplo), mas não é uma fonte de excitação sexual em si. Pessoas trans não passam por tudo que passam simplesmente para ter um orgasmo melhor. 

Dito isso, muitas pessoas que ainda não perceberam que são trans podem recorrer ao universo dos fetiches para expressar seu gênero e / ou aliviar sua disforia. Elas podem continuar experimentando com esses fetiches durante ou após a transição. Não há vergonha nisso, como cada pessoa explora e vive sua sexualidade é uma questão pessoal. Contudo, ao contrário do que ocorre com pessoas cis ao explorarem fetiches, pessoas trans podem descobrir que sua vontade de expressar-se com outro gênero não é mero fetiche, e continua presente nas demais situações da vida cotidiana.