Como descrevemos na seção sobre Causas da disforia de gênero, o corpo de cada ser humano pode se desenvolver tanto pela ação de hormônios andrógenos quanto de estrógenos. Ou seja, a diferenciação sexual do corpo depende dos hormônios que as gônadas (ovários ou testículos) produzem. Inicialmente, no período fetal, o que determina o desenvolvimento das gônadas é o gene SRY (que em geral está presente no cromossomo Y), depois disso, a diferenciação das genitais em pênis ou vagina depende da presença ou não de um pico de andrógenos. Estas são as características sexuais primárias e, antes da puberdade, esta é a diferenciação sexual principal. Somente a partir dos 9 a 10 anos que as gônadas começam a produzir níveis mais altos de hormônios sexuais que iniciam o desenvolvimento das características sexuais secundárias.

Mas como isso funciona? Por que as células se diferenciam dessa forma? Bem, antes de podermos explicar isso, primeiro temos que explicar o conceito de receptores químicos.

Receptores Hormonais

Um receptor é como uma fechadura com diferentes “chaves”. Cada célula do corpo possui um conjunto de mecanismos que ativam diferentes funções dentro dessa célula. Eles são como interruptores que sinalizam para a célula que ela deve ativar uma parte diferente de sua sequência genética. Os receptores são ativados com determinados compostos químicos, como se estes fossem “chaves” que abrem a “fechadura” para desencadear este processo. Diferentes compostos químicos têm diferentes capacidades de ativar um mesmo receptor.

A capacidade de uma molécula de se encaixar em um receptor é chamada de afinidade de ligação relativa e é medida como a probabilidade de uma molécula se ligar a um receptor em comparação a outro. Então, por exemplo, se o Hormônio B se liga apenas 10% do tempo em relação ao Hormônio A, então é dito que ele tem uma afinidade de ligação de 10% comparado ao Hormônio A. Os compostos que se encaixam em um receptor, mas não o ativam, são chamados de Antagonistas – estes bloqueiam que o receptor seja ativado por outras substâncias. Os compostos que são capazes de ativar o receptor e “girar a chave” são chamados de Agonistas. Se o composto ativar um receptor apenas um pouco, é chamado de Agonista Parcial. Também existem substâncias inibidoras, que são compostos que diminuem a velocidade de uma reação química relacionada a um receptor, ou ativadoras, que aceleram a velocidade de uma reação. Uma explicação mais detalhada destes termos pode ser encontrada aqui.

Em alguns casos, um hormônio pode funcionar como um inibidor ou ativador de um hormônio diferente, diminuindo ou aumentando o comportamento de uma célula. Por exemplo, a progesterona aumenta a atividade celular, fazendo com que as células respondam mais eficazmente aos estrogênios e androgênios, e a testosterona aumenta a eficácia de receptores de dopamina, portanto, menos dopamina é necessária no cérebro para que se tenha o mesmo efeito.

O que são exatamente hormônios?

Existem quatro tipos principais de hormônios:

Aminoácidos como a melatonina, que controla o sono, ou a tiroxina, que regula o metabolismo;

Peptídeos, como a oxitocina e a insulina, que são cadeias de aminoácidos;

Eicosanóides que são formados a partir de lipídios e ácidos graxos e afetam predominantemente o sistema imunológico; e

Esteróides, moléculas sinalizadoras produzidas por vários órgãos internos para transmitir mensagens a outros órgãos do corpo.

Para os propósitos deste artigo, esta última categoria é a que mais nos preocupa, já que todos os hormônios sexuais são esteróides. Eles se enquadram em sete categorias principais:

Os três primeiros são os tipos de hormônios relevantes em se tratando da terapia hormonal para pessoas trans. Nota: todos os seres humanos, independentemente do fenótipo, possuem algum de cada um desses hormônios em seus corpos. O que afeta a forma do desenvolvimento do corpo são as diferentes proporções entre esses hormônios.

Andrógenos

Existem quase uma dúzia de andrógenos diferentes, mas os mais importantes são a testosterona e a diidrotestosterona.

A testosterona é o principal hormônio responsável pelo desenvolvimento de características masculinas no corpo humano e é produzida nas glândulas supra renais, nos testículos e nos ovários (sendo que nos ovários ela é imediatamente convertida em estrona e estradiol). Esse hormônio regula o crescimento de células musculares e ósseas e, em concentrações mais elevadas, estimula uma maior massa muscular e uma estrutura esquelética mais espessa. Isso também significa que a testosterona é crítica para a saúde óssea, pois afeta a distribuição de cálcio dentro da estrutura do esqueleto. Assim, uma baixa severa de testosterona pode resultar em osteoporose e ossos frágeis. A testosterona também desempenha um papel importante no impulso sexual e na libido, estimulando comportamentos sexuais.

A diidrotestosterona (DHT), que é convertida a partir da testosterona na próstata, pele e fígado, desempenha um papel importante no desenvolvimento da genitália masculina durante a puberdade, induzindo ereções aleatórias e crescimento de pelos faciais e corporais. A DHT também é o que causa o padrão masculino de calvície, pois bloqueia a circulação do sangue para os folículos na parte superior do couro cabeludo. A DHT se liga aos receptores de andrógenos dez vezes mais fortemente do que a testosterona.

Estrogênios

Existem quatro estrogênios: estradiol, estrona, estriol e estetrol. Os dois últimos são produzidos apenas durante a gravidez e são importantes para a saúde fetal, mas, assim como a estrona, não são relevantes para a terapia hormonal em pessoas trans.

Estradiol é o hormônio feminizante, pois é o principal hormônio de sinalização para o crescimento nas glândulas mamárias (tecido mamário), e porque estimula depósitos de gordura nas coxas, quadris, nádegas, tórax e braços, e inibe o depósito de gordura no abdômen, produzindo assim uma figura mais curvilínea. O estradiol também promove o aumento da produção de colágeno, resultando em uma pele mais macia e tendões e ligamentos mais flexíveis. Sobre os efeitos do estrogênio no corpo, veja o artigo Terapia hormonal feminizante.

Progestatinas

A progestatina principal é a progesterona, que desempenha várias funções no corpo. Ao que indicam pesquisas iniciais, é possível que a progesterona seja um componente importante para a terapia hormonal feminizante.

Um dos maiores papéis que o receptor de progestatina desempenha é na regulação da função gonadal (ovários e testículos). O hipotálamo é repleto de receptores de progestatina e responde fortemente à sua ativação, regulando negativamente a produção de GnRH, o que então reduz a produção do hormônio luteinizante (LH) pela glândula pituitária.

LH é o hormônio que sinaliza a produção estrogênio e andrógenos nas gônadas. O LH e seu hormônio irmão FSH desempenham papéis centrais na ovulação. Assim, os progestágenos sintéticos, substâncias químicas que se encaixam nos receptores de progestogênios, costumam ser incluídos no controle da natalidade para prevenir a ovulação. Em pessoas com testículos, progestatinas têm o efeito de bloquear a produção de testosterona.

Outro tipo de célula cheia de receptores de progestatina é o tecido mamário. A progesterona desempenha um papel importante no crescimento e maturação dos dutos de leite no tecido mamário. Embora pouca pesquisa formal tenha sido conduzida sobre o efeito da progesterona no desenvolvimento dos seios, anedoticamente, ela tem sido amplamente considerada na comunidade trans feminina como capaz de fornecer melhorias significativas na formação dos seios. Também foi demonstrado que a progesterona aumenta o fluxo sanguíneo para o tecido mamário e estimula os depósitos de gordura nos seios, o que aumenta o tamanho dos seios. Contudo, ainda não há confirmação científica destes efeitos.
Outros possíveis efeitos da progesterona incluem melhora no sono, melhora na saúde cardiovascular, aumento da cetogênese (reduzindo os triglicerídeos), aumento na função metabólica e menor risco de câncer de mama.