Trans-gê-ne-ro adj.
Denota uma pessoa cujo senso de identidade pessoal e gênero não corresponde ao seu sexo atribuído no nascimento.

Desde que existe civilização humana, existem pessoas cujas experiências internas de gênero não se alinham com as características físicas de seus corpos. Os Gala, uma classe de sacerdotes do império sumério que existiu há mais de 4.500 anos, possuíam um gênero que não era considerado nem masculino, nem feminino. As culturas indígenas da América do Norte reconheciam um terceiro gênero muito antes do colonialismo europeu, e ainda o fazem até hoje. O imperador romano Heliogábalo (218 DC) insistia em ser referido como Senhora em vez de Senhor, e até ofereceu uma recompensa para qualquer pessoa capaz de realizar uma cirurgia de reconstrução genital.

Apesar disso, a compreensão moderna da experiência transgênero existe há apenas aproximadamente 130 anos. Até mesmo a palavra “transgênero” remonta a 1965, quando John Oliven a propôs como uma alternativa mais precisa ao termo “transexual” de David Cauldwell (cunhado em 1949), que substituiu o termo “travestido” de Magnus Hirschfield (1910) (nota: optamos por traduzir o termo “transvestite” como “travestido” para diferenciá-lo do termo brasileiro “travesti” que tem um significado cultural/identitário próprio e do qual trataremos oportunamente).

Ser transgênero é ter uma identidade de gênero que não corresponde ao gênero que é geralmente presumido a partir da genitália com a qual uma pessoa nasceu. Isso pode significar que uma pessoa que nasceu com um pênis é na verdade uma menina, que uma pessoa que nasceu com uma vulva é na verdade um menino ou que uma pessoa com qualquer configuração genital pode não se encaixar totalmente em nenhum dos lados desse espectro e é não binária.

Uma pessoa trans pode vir a reconhecer isso em qualquer momento de sua vida. Algumas crianças identificam isso assim que são capazes de compreender o conceito das diferenças entre os gêneros, outras não começam a sentir nada até o início da puberdade, e ainda outras não percebem que algo está errado até a idade adulta. Muitas pessoas simplesmente nunca são expostas à ideia de que seu gênero pode ser incompatível com seu sexo de nascimento e, portanto, simplesmente “aceitam seu destino”. 

É comum também que pessoas infelizes com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer acreditem que sua experiência não é a mesma que aquela vivenciada por pessoas trans. Alguns podem sentir que o desejo de ser transgênero e transicionar é algum tipo de desrespeito com pessoas trans “reais” que sabiam desde sempre que eram na verdade meninos ou meninas “nascidos no corpo errado”. Essas narrativas da experiência transgênero disseminadas na cultura popular criam uma impressão bastante falsa do que significa ser uma pessoa trans.

Essa experiência de descontinuidade entre o eu interno e externo é o que descrevemos como Disforia de Gênero. Cada pessoa trans, independentemente de sua posição dentro ou fora do binário de gênero, passa por alguma forma de Disforia de Gênero. Este é um assunto político dentro das comunidades trans, já que diferentes grupos têm suas próprias ideias sobre o que é Disforia de Gênero, como ela se manifesta e o que qualifica uma pessoa como trans.

O objetivo deste site é documentar as muitas formas que a disforia (e euforia) de gênero pode apresentar, bem como outros aspectos de transições de gênero, a fim de fornecer um guia para aqueles que estão se questionando, que já iniciaram suas descobertas pessoais, e também àqueles que apenas querem ser melhores aliados para pessoas trans.